05 outubro 2006

romance noir

Obrigado por me acompanhar na última noite. Eu sei bem que você não estava fisicamente comigo. Mas logo depois que fechei os olhos, sua imagem tomou todo meu cérebro e todas as cenas começaram a se construir. Era tudo tão bonito.
Lá no fundo, bem baixinho, tocava Billie Holiday. Ela dizia que já tinha chorado por alguém. O amor é tão bom, o grande problema é o sofrimento que vem no pacote. E sempre vem. Não acredito na pessoa que diz que nunca sofreu por amor. E a negra cantora de voz talvez rouca, já derramou algumas lágrimas. Do mesmo jeito que eu chorarei por você. E eu estou querendo correr esse risco.
Aquele som criou um clima. Junto com a neblina que também pairava sobre as mesas. Sentado num banco alto, com as pernas cruzadas, apoiado no balcão, segurando uma taça com um líquido amarelo transparente, usando aquela camisa e calça que ornavam com o formato do seu rosto. Me aproximei devagar. Não era preciso se apressar. Nós tínhamos todo o tempo do mundo para ficar naquele lugar, sair ou fazermos o que quiséssemos.
O garçom, com sua gravata borboleta clichê, perguntou-me quando cheguei no balcão, se queria beber algo. Decidi te acompanhar. Brindamos. Você me lançou um olhar. Tenho uma fotografia sua guardada na minha memória. Você, de camiseta azul, dentro do seu quarto ou da sala da sua casa, com os olhos voltados para fora da câmera. Eu guardei bem na minha cabeça a posição deles. E agora você repetia. Na minha frente, logo depois de encostarmos as duas taças e a nossa noite começar.
As luzes nos favoreciam. Os postes da rua, meio amarelados, nos mostravam que direção tomar. Era bom andar. Caminhar com você pelas ruas da cidade. Tudo escuro, tudo preto-e-branco. Estávamos num filme noir.